Quem tem cão pode caçar à vontade

Os adeptos de refrigerante, vinho ou pinga que dão preferência à produção regional não imaginavam haver suposto esquema de belicosa disputa pela tomada de parte da cadeia produtiva, uma das hipóteses para o assassinato do empresário e político Oscar Goldoni aos 66 anos em Ponta Porã no dia 15. Na sexta-feira e no sábado, mais três vidas são tiradas sem autorização da natureza – respectivamente, dois jovens paraguaios encontrados mortos na fronteira com o país vizinho, cada um com quatro tiros de 9mm e cadeado na boca, e um comerciante atacado em sua caminhonete por um atirador que o matou e feriu, sem risco de morte, sua mulher e filhos – de igual forma, tendo, porém, afastadas ligações com a morte de Goldoni quanto ao motivo. Não se diferencia do que acontece nas "outras" profissões a rotina dos pistoleiros, não descansando sem cumprir o que é demandado pelos contratantes graças às facilidades para o exercício da atividade que os governos de ambos os países terminaram legalizando com seu pouco notável desempenho no controle do fluxo e atitudes de quem transita pela divisa.

As explicações em torno do perfil mental de quem se lança nesse tipo de ocupação choveram no molhado. Muito baixa é a efetividade das imaginárias expectativas aventureiras criadas em volta da purgação paga de vidas humanas em mentes com bem estruturados futuro e entendimento do impacto que caminhos indevidos deixa em muitas pessoas e famílias e do retorno a que se sujeita quem com ele se encanta.

Porém, análises das características de quem seus tenta esse ofício clandestino (os clientes) têm por enquanto inesgotáveis chances de rendimento. Por mais que já empate a uniforme concessão de direitos à coletividade, os ajustes feitos por indivíduos de alto padrão social nas engrenagens dos órgãos públicos esperando neutralizar estorvos indicam ter serventia a grandiosa bagagem de conhecimentos que marca essa classe, ainda beneficiada por representantes no comando das instituições. Em algumas dessas pessoas fixadas no topo da pirâmide social, a inteligência não dá conta de suas ambições em preservar referido status apoiadas em puramente emocionais pilares e expandidas a ponto de se sobrepor às potencialidades para fazer progredir a comunidade que habita, o que acrescenta sentido à majoritária (se não total) contribuição do grupo na movimentação do mercado sicário. Se for concreta verdade a participação de Oscar Goldoni no estopim para o bangue-bangue que acabou por fazê-lo tombar mortalmente, seu alegado envolvimento em ataques contra dois irmãos que "tocam" outra fábrica de bebidas, em um dos quais perderam dois funcionários, sejamos bem-vindos a um outro lado da moeda, que estampa na trajetória dele, responsável por imagináveis benfeitorias dirigidas a setores populares, ter excetuado de sua bondade quem lhe pisava no calo!

Além de mostrar a sede do DETRAN (Departamento Estadual de Trânsito) de Ponta Porã e arredores após o espetáculo cinematográfico em que Oscar, ao sair do prédio e deparar-se com os atiradores quando entrava em sua caminhonete, chegou a encará-los de igual pra igual com sua pistola, tendo atingido um dos algozes, antes de ser por eles dizimado com disparos de pistola e fuzil, a imprensa recebeu das autoridades informações que sinalizavam o imediato começo do processo investigativo, entre elas una varredura por hospitais de lá e de Pedro Jual Caballero à procura do suposto assassino ferido e o achado de uma testemunha que estava no veículo da vítima (embora esta não prestara suficientes esclarecimentos). No último sábado também era um empresário o mais recente alvo mortal dos pistoleiros, o dono de serralharia Carlos Ayala, baleado em sua caminhonete, tendo sua esposa e filhos igualmente recebido descargas balísticas, sem risco de morte, mas deixando-lhes grande devastação moral. Pode o grau de influência econômica do tipo de atividade explorada "Carlinhos" (não sendo sinônimo de metalurgia) estar determinando o aparente menor tratamento que recebe o caso, assim como possíveis críticas do jornalista Paulo Roberto Cardoso Rodrigues "Rocaro" (executado em 2012) ao funcionamento das entidades estatais e a suposta menor relevância dos tantos casos envolvendo pessoas comuns, situação da qual se aproximaria o duplo homicídio contra os jovens que tiveram as bocas cadeadas.

Em sua visita a uma base do SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), o vice-presidente PMDBista Michel Temer (na época presidente em exercício devido a compromissos de Dilma) averiguou a força da integração entre efetivo humano e tecnologia nacional traduzida em radares, câmeras e outros aparatos no controle da circulação de pessoas e bens ao longo das faixas divisórias internacionais a fim de barrar coisas ilícitas e desafios a nossa soberania. À meta de implante do projeto em todas as áreas fronteiriças até 2021 está reservado um bom prazo que trará boas colheitas caso não se perca nem um segundo sequer adiantando-se os municípios, estados e a União, e sob exigências aos países vizinhos que façam sua parte, em mobilizações interessadas em incluir faixas de transição urbanas (exemplo de Ponta Porã) na rota deste sofisticado projeto propenso a ter no controle do porte de armas e na garantia de regularização do fluxo de pessoas e veículos eficácia semelhante à de seu uso no encerramento precoce das viagens de traficantes e contrabandistas.

Comentários